Todo palhaço é um político mas nem todo político é um palhaço. Ambos, sem público, desaparecem.

Escrito por MARIO ROSA

Não é justo dizer que a política se transformou numa grande palhaçada. Mas é absolutamente justo afirmar que todo palhaço é um político. Contracena usando os mesmos artifícios de interpretação da política. E sofre os mesmos medos e busca as mesmas glórias, de certa forma. O palhaço quer o aplauso, quer ser amado, quer casa cheia. E nada mais solitário do que o antes de subir ao palco. Palhaços e políticos, sem público, desaparecem. Não podem nunca perder a graça.

Falo ainda sob o impacto do espetáculo protagonizado pelo magistral palhaço Soró. Assisti à sua apresentação quando a turnê de sua trupe passou pela remota Barra Grande, no litoral do Piauí, quase na divisa do Ceará. Soró é uma aula de tudo o que os animais políticos precisam ter para sobreviver na selva da vida pública.

Primeiro, essa detestável e pedantérrima palavra que entrou na moda (espero que passe logo): resiliência. O circo do palhaço Soró não é, digamos assim, nenhum Cirque du Soleil. Sua lona, que roda esse mundão do Brasil profundo, está desbotada e um tanto rota. Tem quilometragem. Ainda assim e apesar de tudo, todas as noites, em algum lugar deste Brasilzão, Soró entrará em cena. Com casa cheia ou não. Cruzará a lona do fundo do palco para encarar o público que houver. E declamará suas palhaçadas com a mesma animação.

Quantas vezes políticos não seguem para lugares lá no fim do mundo atrás de aplausos e, como Soró, sobem em palanques para falar com o nada? Ou quase nada. Mas o circo da política não pode parar. E seus protagonistas se apresentam para gatos pingados como se estivessem discursando para multidões. Soró os entende perfeitamente.

No circo do palhaço Soró, como nos comícios, a grande estrela – ele – é o ápice do espetáculo. Antes, vêm os correligionários: o engolidor de fogo, o equilibrista, o palhaço assistente. Na política, os caciques também tem uma equipe com gente que brinca com fogo, com outros que andam na corda bamba e políticos que servem de escada para que o maioral faça sua entrada triunfal.

No circo do palhaço Soró, a graça não é o humor pasteurizado e politicamente correto dos humorísticos da TV. Ali, o Brasil se vê como é. Num dos momentos, a plateia morre de rir de Soró falando do assalto que sofreu na noite anterior. Ficou sem roupa. Noutro, a palhaçada é brincar de simular assaltos contra figurantes. Quase todos perdem um celular e saem correndo em desespero. Tem também o marido que chega bêbado em casa com um facão na mão, enquanto a esposa faz de tudo para esconder os inúmeros amantes, inclusive Soró, dependurado num trapézio.

O show, que custa 5 reais, fala de problemas reais que pessoas reais do país real vivem. E ao rirem deles fazem uma terapia. Intelectuais chamariam de catarse. Palhaçada é a terapia da plebe.

Durante todo o espetáculo, um locutor invisível fala um português absolutamente compreensível. Tão compreensível que dispensa concordâncias. Os artistas reverberam a brasilidade de seus sotaques nordestinos. E crianças e adultos são envolvidas naquela fantasia. Como na política, como nas campanhas, como nos debates eleitorais. E lá no alto, no olimpo daquilo tudo, reina o palhaço Soró. Ah como senti inveja dele! Queria um dia, um dia só, passear pelas ruas de uma cidadezinha e ouvir alguém falando assim de mim:

– Viu? É o palhaço Soró…

A glória não é fácil. Na vida ou na política.

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