TV e rádio serão decisivos para Alckmin assim como o voto estratégico de última hora

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O cientista político, Antonio Lavareda, um dos mais renomados analistas de pesquisas eleitorais no país, acredita que quatro candidatos vão estar na disputa pelo Planalto no primeiro turno: o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), a ex-senadora Marina Silva (Rede), o ex-prefeito Fernando Haddad (no lugar do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) e o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Este último pode ser beneficiado pelo espaço no horário gratuito de TV e rádio, enquanto Haddad (PT) deve herdar os votos do ex-presidente, que está preso em Curitiba desde abril.

De acordo com Lavareda, o voto estratégico, que leva eleitores a buscar candidatos com mais chances, pode definir quem irá para o segundo turno. “Vai haver uma grande chance de o eleitor do Alvaro Dias (Podemos) e do João Amoedo (Novo) transferir seu voto para o Alckmin”, disse.

Quanto ao ex-governador Ciro Gomes (PDT), o analista acredita que seu histórico de votos nas últimas eleições limita suas chances de disputar o primeiro turno.

Como o senhor tem visto o desempenho dos candidatos à Presidência da República, com o resultado das últimas pesquisas?

O que as pesquisas dizem é que existe um quadro de grande estabilidade das intenções de voto. Não é que não tenha havido movimento, mas esse movimento tem sido discreto. Há uma explicação para isso que não tem sido ressaltada: essa é a primeira eleição presidencial sem propaganda partidária eleitoral no semestre que antecede a campanha. Essa propaganda, nos anos de eleições anteriores, eram utilizadas pelos candidatos à Presidência – e bem utilizada – e provocava movimentos rigorosos nas curvas de intenções de voto. Eram as inserções dos partidos. Ou seja, a propaganda da TV e do rádio começavam em janeiro, e agora vai começar apenas no dia 31 de agosto. Essa é a grande diferença que explica a monotonia das curvas. Era o que provocava as ascensões dos candidatos, tornando-os conhecidos pelo eleitorado. Foi um grande erro dos partidos ter acabado com isso.

Qual é, exatamente, esse quadro de estabilidade?

Só o (ex-presidente) Lula cresceu, mas cresce pouco. No primeiro cenário com Lula, ele aparece mais forte. Mas se você faz um cenário como a XP Investimentos/Ipespe faz, ele aparece mais fraco. Jair Bolsonaro e Marina Silva têm tido alteração, mas sem destaque. Nós só teremos isso com o início da propaganda.

Sabendo que o candidato do PSDB Geraldo Alckmin tem mais de 400 inserções em um período de pouco mais de 30 dias, ele seria o mais beneficiado pelo atual sistema?

A partir de agora, o grande player da televisão e do radio é o Geraldo Alckmin, assim como o grande player das redes sociais é o Bolsonaro. Existem dois candidatos cujo crescimento é inevitável, embora não saibamos que patamar atingirão. Primeiro caso é o Alckmin, por conta desse tempo de TV e rádio, o segundo caso é o Fernando Haddad, por causa da transferência de votos do Lula, que não sabemos quando vai ser realizado.

Em relação à transferência de votos do ex-presidente Lula, para seu possível substituto, o ex-prefeito Fernando Haddad, que estimativa o senhor faz?

A pesquisa com o Datafolha mensurava em 30% os eleitores que dizem que com certeza votarão no candidato do Lula. Quando você pergunta o candidato do Lula, sem dizer o nome, as pessoas, na verdade, estão dizendo que vão votar no Lula. Isso é diferente. Na XP, quando você diz que o Haddad é o candidato do Lula, aparece algo entre 13% e 15%. Pode-se dizer, com grande possibilidade, que Haddad pode chegar nesses 15%, talvez um pouco mais ou um pouco menos, dependendo da campanha do PT.

O sr. não acredita que ele vai além disso?

Vai depender de uma grande criatividade da campanha petista. O Lula não pode fazer campanha efetivamente. Ele gravou algumas cenas. É um material bem diferente do que havia na campanha da Dilma Rousseff, em 2010.

Na época ele tinha a máquina do governo na mão também.

Exatamente.

Existe possibilidade de Haddad chegar ao equivalente a percentagem que o Lula tem hoje?

Acho difícil. Se a alienação for de 28% e 30%, então corresponderia a 15% dos votos válidos. É preciso lembrar o que é voto válido.

No quadro atual, quais são os candidatos mais fortes?

Os candidatos que vão disputar a passagem para o segundo turno são, naturalmente, o Bolsonaro, porque hoje ele lidera, o Haddad, o Alckmin e a Marina, que em outras eleições já mostrou grande capacidade de resiliência.

Por que o sr. não inclui o candidato do PDT Ciro Gomes?

Porque ele tem o voto disputado com o Lula. E o resultado do Ciro nas últimas eleições que ele concorreu ao cargo fica em um patamar baixo, de 9% e 12%. A Marina fica entre 19% e 21%, em 2010 e 2014.

O sr. acha que Marina Silva tem condição de repetir esse desempenho?

Não acho. Mas ela tem potencial de resiliência. Vai depender de quanto vai aguentar ali no meio da campanha. Se o Alckmin não for eficiente, o eleitor pode ficar tentado a ir com a Marina, porque ela deve ter bom desempenho no primeiro turno.

Pode haver uma movimentação de voto útil ainda no primeiro turno?

Na reta final tem uma coisa chamada voto estratégico. É o eleitor, que na última semana de setembro, vendo o Alckmin empatado com Bolsonaro, com Marina, e disputando de forma acirrada a passagem para o segundo turno, muda de estratégia para levar o Alckmin ao segundo turno. Vai haver uma grande chance de o eleitor do Alvaro Dias e do João Amoedo transferir seu voto para o Alckmin.

Mas não para a candidata da Rede, Marina Silva?

Esses eleitores mais à direita, dificilmente irão para a Marina. Ela é a maior beneficiada na ausência do Lula. Mas o Haddad está condenado a crescer, e ele cresce, sobretudo, no eleitorado da Marina hoje. A maior parte dos votos do Lula irá para o Haddad. Uma parte residual vai para outros, mas mais para abstenção do que para outro candidato. A grande chance é de que o eleitor mais pobre do Lula, que não se vê no Alckmin, por exemplo, não vote em ninguém.

Acredita que o candidato do PSL Jair Bolsonaro, pode declinar nas pesquisas?

Vai declinar pelo pouco tempo de televisão, e porque parte dos eleitores já o conhece melhor, e provavelmente não vai compartilhar de algumas ideias que ele defende. Ele vai ter dificuldade com o voto feminino e com o voto dos negros.

Mesmo assim, ele tem chance de passar para o segundo turno?

Bolsonaro tem chance. Assim como esses outros três candidatos.


**A entrevista foi publicada pelo Jornal do Brasil aos jornalistas Octávio Costa, Rebeca Letieri e Bernardo de La Pena

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