Será que cabe ao povo ser porta-voz do TCU, ser a caneta do STF, ser as algemas policiais, ser a sentença de condenação e o responsável pela prisão?
O protesto popular registrado na tarde deste sábado em Bento é fruto do altíssimo preço que a população vem pagando desde muito tempo. E não só preço em produtos ou serviços, mas principalmente o preço na honra, no desrespeito à sociedade, nos desmandos e descasos governamentais que se acumulam para o esquecimento, na corrupção desenfreada, nos crimes aviltantes e sem punição, no espanto com a canalhice política . E muito mais. Não se deve esquecer que os gastos absurdos com as obras não terminadas, aliados às acusações de superfaturamento, desvios e roubalheiras de todos os tipos, chegaram até a garganta da população como um grito desejando irromper. Ora, ninguém suporta mais ver o Ministério Público apontar irregularidades e crimes praticados e nenhuma providência ser tomada.

Sinto uma certa tristeza , porque acredito que, no caso de Bento, estes protestos deveriam ter ganhado as ruas ainda no ano passado. E no caso da Copa do Mundo, ainda quando do início das obras babilônicas. E a Dilma? Será que ela vai insistir que não tem nada haver com isso? A nação do futebol é também a das favelas, dos esgotos a céu aberto, da extrema pobreza em cada canto onde mentirosamente se propaga a redenção. Os governantes deveriam saber - e certamente sabem - que tudo tem o seu limite.

Verdade é que os governantes e toda a classe política sempre fizeram o que bem quiseram, sempre esbanjaram imoralidades achando que as indignações e os descontentamentos do povo são sempre passageiros. Acostumaram em roubar, em nada fazer, em mentir, em esbanjar da cara do povo e receberem, desse mesmo povo, os votos que os elegem. Sempre aconteceu assim, e por isso mesmo o espanto quando a sociedade eclode, sai às ruas, solta o seu grito preso desde muito, faz bradar sua indignação.

No rol da grita nacional, onde caras limpas ou mascaradas protestam com justa razão, está a precariedade da contraprestação do Estado pela elevada carga de tributos arrecadada, refletida na saúde, educação, segurança, transporte público, infraestrutura, moradia e um sem-número de outros bens e serviços a serem supridos ou subvencionados pelas esferas de governo. Quem de agora em diante será o porta-voz de tudo aquilo que se ouviu e viu em todos os cantos do país?

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