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Ex-presidente do Banco Central diz que é falso o debate entre salvar vidas e a economia


O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, em entrevista para o jornal O Globo, disse que é falsa a dicotomia entre salvar vidas e a economia. Segundo ele, suspender a quarentena imposta pelos municípios, na maior parte do país, não levaria os brasileiros a saírem gastando e nem os empregos seriam preservados em sua plenitude.

"Dá a impressão de que há um custo econômico, e há. Mas dá também a impressão de que há uma alternativa sem custo, que seria fazer o isolamento vertical. Mas isso não é verdade", afirmou.

"É preciso olhar no detalhe, no caso do Brasil pegaria um número muito grande de pessoas muito fragilizadas. Da população, 38% são idosos, portadoras de doenças crônicas ou ambos, seria uma loucura".

Sobre o isolamento social vertical, aquele que fecha tudo por duas semanas, identifica-se quem está carregando o vírus e isola essas pessoas, Fraga disse que no Brasil o modelo é totalmente inviável.

"Aqui no Brasil isso é totalmente impossível. E os que ficarão expostos são muito numerosos e vulneráveis. Nossa rede de hospitais, como aliás em boa parte do mundo, não esta preparada para uma pandemia deste tamanho. Seria uma catástrofe social".

“No caso do isolamento, a ideia é se antecipar à propagação do vírus. Em outros países, como Cingapura, que é rica e pequena, foi possível também testar muito, com rastreamento de contatos, um processo quase individual. Mas isso não seria possível aqui. Então, o isolamento é a única opção".

"Uma estratégia radical ( de abandono do isolamento) que, falando com muita transparência, vai matar muita gente, para mim não faz o menor sentido. Vamos dar um jeito de aguentar e ganhar tempo, o governo terá que ser solidário, as pessoas também."

Sobre a situação econômica o economista concorda de que é preciso medidas urgentes.

"No lado da economia, a ação ganha contornos de urgência, em função do colapso súbito da receita de várias empresas, pequenas, médias e grandes. Dependendo do setor, o colapso chega a 100%. Nada disso existe em situações normais. Numa recessão, a receita cai aos poucos e chega, no pior momento, a uma queda média de 10%. Por consequência, espera-se uma onda enorme de desemprego. Por isso, é importante agir rapidamente. O que não está acontecendo.”

"Haverá portanto um custo econômico. Estamos lidando com uma situação com grande potencial de instabilidade. Cabe uma resposta firme da política social e econômica. Nós temos os recursos. Os EUA vão gastar 5% do PIB. Aqui poderíamos gastar um pouco menos, 3%, 4% do PIB deixando claro que são gastos temporários, mas ajudaria bastante. A situação já não estava muito boa, o desemprego já vinha alto, a economia vinha crescendo pouco".

"É crucial que o governo apresente uma estratégia clara, que deveria englobar quatro grandes ações de resposta a crise: apoio à rede hospitalar, manutenção do abastecimento e da logística, ajuda à população mais pobre e socorro as empresas".

"O ideia neste momento não é buscar a perfeição,é soltar os recursos o quanto antes. É preciso usar o Cadastro Único, zerar a fila do Bolsa Família de depois ampliar o programa. É uma ferramenta que precisa ser acionada rapidamente. Esse é um uso nobre dos recursos, talvez o mais nobre, em paralelos aos recursos para o SUS. A outra frente de ação é o crédito para as empresas." disse.

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